A Invenção da América Latina – Héctor H. Bruit1

A Invenção da América Latina

Héctor H. Bruit1

Resumo
O artigo visa explicitar o processo de invenção e adoção do nome e idéia de América Latina.
A latinidade e a idéia de América Latina, têm a ver com a consciência cultural do continente.
O nome e a idéia não existiram na consciência dos intelectuais americanos do século xix. O
nome se popularizou após a Segunda Guerra mundial.

Abstract
The aim of the present article is to make explicit the invention process that led to the name
and Idea of Latin América. The so called “latinidade” and the central concept around Latin
América are certainly .linked to the cultural consciousness of the whole continent. However,
the name did not exist in the mind of the American intelligentsia of the xix century and it
became popular only after the Second World War.
Palavras chaves: Latinidade; consciência Cultural; historiografia, literatura.
***

Em 1991, publicou-se um livro com um título carregado de significado: “La fortune
d’um nom, América” (Ronsin, 1991). De fato, o nome próprio que designaria o Novo Mundo, América, colocado na parte sul do continente no famoso mapa de Martin Waldseemuller de 1507, logo passaria a nomear também a parte norte. Todavia, o suces-so desse nome apagou o fato de que esse nome, América, sería arrebatado, no século XIX, pelo único país no mundo que não tinha nome: os Estados Unidos de norte-américa.

Com a doutrina Monroe, esse nome de tanto sucesso passou a designar o país do norte, enquanto que a primeira América, a de Colombo, Cabral, Vespuccio e Moctezuma, passou a ser chamada de América Latina marginalizando as populações indígenas e negras. E este novo nome, também teve muito sucesso não obstante as resistências da Espanha que no fundo sempre se sentiu mais visigótica , fenícia , vândala, moura e judia, que latina.

1 Departamento de História e Centro de Memória – UNICAMP.
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Em seu Ensaio político sobre a ilha de Cuba, publicado em Paris em 1826, Humboldt
alertava para a injustiça histórica de chamar de americanos só os cidadões dos Estados Unidos
da América do Norte.
Realmente, o nome de América Latina, independentemente das razões ideológicas e
políticas que envolveram seu nascimento, veio para rebatizar um continente que tinha perdido seu nome originário.
Se atribui aos franceses esta invenção. Não obstante, a invenção foi de dois  ,
o argentino Carlos Calvo e o colombiano José Maria Torres Caicedo
Carlos Calvo foi um jurista importante, especialmente pelos tratados de Direito
Internacional público e privado que publicou por volta de 1868 Nestas obras ele formulou o
principio de que nenhum governo deveria apoiar com as armas reclama-ções pecuniárias de países devedores. Este principio se tornaria famoso em 1902, quando Venezuela enfrentou a fúria das potencias européias pelo não pagamento de empréstimos Então, o Ministro das relações Exteriores da Argentina, Luis M. Drago, invocou o principio de Calvo, ficando com o nome de doutrina Drago.

Por volta de 1864, Calvo publicou, em Paris, uma obra monumental em vinte volumens
com um título tão cumprido como a própria obra: Recueil complet dês traités, conventions,
capitulations,armistices et outres actes diplomatiques de tous lês Etats de l’Amérique latine
compris entre lê golfe du Mexique et lê Cap Horn depuis l’année 1493 jusqu’à nos
jours..Era a primeira vez que se empregava a expres-são América Latina numa obra
acadêmica. Calvo disse na dedicatória a Napoleão III que a obra era um reconhecimento e
gratidão da raça latina à inteligência superior do Imperador.
A finalidade do jurista argentino, que também se apresentava como historiador,
economista e geógrafo nos círculos acadêmicos de Paris, era dar a conhecer um continente
muito mal conhecido na França e na Europa em geral. De fato, o que se sabia provinha da
imagem desenvolvida no século XVIII por Buffon, Reynal e Robertson entre outros. Isto é, o mundo americano era hostil, degenerado, nocivo e sofocante.

O colombiano Torres Caicedo, também residente em Paris, lançou a idéia de criar a liga
Latino-Américana. Em 1865, publicou um livro com o título Unión Latinoamericana. O
projeto de Caicedo era organizar um movimento contrario à política pan-americana dos
Estados Unidos. Ele escreveu : “Hay uma América anglosaxona, dinamarquesa, holandesa
etc.,hay uma española, francesa, portuguesa e a este grupo que denominación científica darle sino el de latina”? (Ardao,1986).
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A expressão usada com freqüência na década de sessenta era “raças latinas”, até existia
uma publicação periódica com esse nome, Revue des Races Latines.
Nessa época, França se preparava para invadir México. O ideólogo desse
expansionismo era o historiador Michel Chevalier, então senador do Império francês. Em seu livro, Le Mexique ancien et moderne , publicado em 1863, desenvolveu a idéia de que
França era a herdeira das nações católicas e lhe correspondia levar à América a tocha das
raças latinas, isto é, francesa, italiana, espanhola e portuguesa. Considerava que estas três
últimas nações estavam em decadência. França era a única nação católica que podia deter o expansionismo protestante e anglosaxão. Esta missão começaria em México (Phelan,1993).

É significativo que nos artigos escritos na Revue dex Deux Mondes e em seu livro
sobre México, Chevalier não usou a expressão América Latina.
Na volumosa correspondência do Mariscal Bazaine com Napoleãn III e com o
Ministério das Relações Exteriores , entre 1862 e 1865, publicada no México por Genaro
Garcia, não existe a idéia de América Latina, não existe a idéia de pan-latinismo. A finalidade de conquistar México, era basicamente econômica:
“De acuerdo al estado actual de la civilización mundial, la prosperidad de América no es indiferente a Europa, porque ella alimenta nuestra industria y vivifica nuestro comercio. Tenemos interés que la república de los Estados Unidos sea poderosa y próspera; pero no tenemos ninguno en que se apodere de todo el Golfo de México, domine, desde allí, las Antillas y la América del Sur”(García, 1973).

Se observa, nesta carta de Napoleão III ao general Forey datada de 1862, que as
regiões são designadas com os nomes usados ao longo do século XIX, isto é, América do Sul, Antilhas, Estados Unidos e Novo Mundo.

Não é fácil determinar se o nome de América Latina tinha alguma divulgação na
FRANÇA e na Europa ocidental na segunda metade do século XIX .Não conhecemos todos
os números da Revue Das races Latines e é mais que provável que em alguns números se
falasse ou se usasse a expressão América Latina. Nos dois números que temos podido
consultar, de 1858, nos permitem afirmar que a revista era mensal e dedicava um extenso
capítulo a “les hommes de la race latine”. No número de julho, esse homen era José de San
Martin; no número de agosto se fala sobre o general espanhol Leopoldo O’Donnel. Tinha uma outra sessão dedicada à correspondência italiana, espanhola, belga, e a correspondência da América do Sul. Esta sessão tinha um conteúdo econômico. Mas também há estudos sobre as cidades italianas, espanholas,etc.
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Temos também, a correspondência dos americanos residentes em Paris. Pela variedade e
riqueza dos temas discutidos, a correspondência de Juan Bautista Alberdi talvez seja a mais importante. Seu remitente era o compatriota Francisco Javier Villanueva, médico residente no Chile. Esta correspondência abarca um longo período, de 1855 a 1881. Alberdi fala de tudo.

Os fatos e processos político-econômicos da Europa e da América, particularmente da França e da Argentina, são objeto de sua atenção; a intervenção francesa no México, a intervenção espanhola no Peru, a Guerra da Tríplice Alianza, o Congresso Americano de Lima,etc. Fala de políticos, diplomatas, escritores, poetas, publicações
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tostado, llamando latino al arauca- no, al azteca, quichua, al guaraní, al charrúa,
amos de la raza de los amos que los oprimen…..
Lleguemos a enderezar las vías tortuosas e n que la civilización europea vino a
extraviarse en las soledades de esta América. Reconozcamos el árbol por sus frutos:
son malos, amargos a veces, escasos siempre. La América del Sur se queda atrás y
perderá su misión providencial de sucursal de la civilización moderna. No
detengamos a Estados Unidos en su marcha: es lo que en definitiva proponen
algunos. Alcancemos a Estados Unidos.seamos la América, como el mar es el
océano. Seamos Estados Unidos( Sarmiento,1883).
Este texto que forma parte das conclusões de Conflicto y Armonia de lãs Razas em
América, publicado em 1883, é contundente e não deixa lugar a dúvidas em relação à idéia de latinidade.
Na realidade, a idéia de latinidade era associada a idéia de monarquia, de conservadorismo, de anti-liberal, de anti-republicano. A latinidade é européia, nasceu na Roma antiga, está estreitamente ligada a Igreja Católica, ao autoritarismo monárquico. Desta forma foi discutida por alguns dos intelectuais do século XIX, como José Victorino Lastarria em seu livro La América.

A idéia de uma influência francesa única nos intelectuais americanos do século XIX, foi
produto da propaganda hispânica que os acusava de afrancesados e de ferir o idioma com
galicismos desnecessários. Desde a publicação do livro de Pedro Henríquez Ureña, Seis
ensayos em busca de nuestra expresión,de 1928, os estudiosos da literatura conti-nental
chegaram a conclusão que já no século XIX, a literatura americana apresentava um forte
cosmopolitismo. Quer dizer, não só se lia Lamartine e Balzac, mas também Scott, Byron e
Goeth (Girardot, 1994).
Bastaria revisar as obras de José Victorino Lastarria, Juan Bautista Alberdi, Manuel
Bilbao, Esteban Echeverria, Juan Montalvo, Justo Sierra, etc. para perceber que a idéia de
América Latina não formava parte de seus pensamentos. Quando nomeian o continente, usan
as expressões América, Hispáno-América, Ibero-América ou Sul-Amé-rica.
Quase uma excepção, foi Santiago Arcos que usou a expressão América Latina em seu
livro sobre Argentina, La Plata, Étude Historique, publicado em Paris em 1865. Não
obstante, a expressão mais usada por este escritor é raças latinas. A mesma coisa pode-se
dizer de Francisco Bilbao, que usou a expressão “raça latino-americana”, em uma conferência
em Paris em 1856. Mas não voltaria a usar essa expressão em seus trabalhos
mais importantes, como ser no Evangelio Americano . Pelo contrario, condenou
duramente a invasão francesa de México, e situou o imperialismo francês no mesmo nível dos
imperialismos norte-americano e russo (1999, Abramson).
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Nos Estúdios Econômicos de Alberdi, obra editada em 1916 e a mais importante das
obras póstumas, chama nossa atenção o primeiro sub-título do terceiro capítulo:
“La América em España, o antecedentes de la pobreza que forma la condición
económica de la América Latina”. Nas quatrocentas páginas do livro, Alberdi chama o
continente de Hispano-América ou América do Sul. Então, parece ser que a expressão
América Latina do sub-título, foi obra dos editores. Sería necessário consultar o manuscrito.
O mesmo pode-se falar de José Martí. Para o pensador cubano, América, Nossa
América, só pode ser a América indígena, a negra, a mestiça, a “criolla”, a América do século
XVI, isto é, Ibero-América. Os Estados Unidos são de Norte-América. Em nenhum momento,
passa pelo pensamento de Martí a idéia de latinidade, pois América, Nossa América, deve
procurar em suas raízes, no autóctone, sua cultura, seu governo, seu progresso. Rejeita a
disjuntiva de Sarmiento de civilização ou barbárie:
“Por eso el libro importado ha sido vencido en América por el hombre natural. Los
hombres naturales han vencido a los letrados artificiales. El mestizo autóctono ha
vencido al criollo exótico. No hay batalla entre la civilización y la barbarie, sino
entre la falsa erudición y la naturaleza” (Martí,1973).

José Enrique Rodó, o mais afrancesado dos escritores do inicio do s éculo XX,porque a devorado a Renan e a Anatole France, usou a expressão América Latina duas vezes em seu livro Ariel, publicado em 1900, em um discurso de 1905 em homenagem a Anatole France que visitava Montevideo, em uma corta nota jornalística com o título de “La voz de la Raza” a propósito da Primeira Guerra Mundial e no Mirador de Próspero.Porém, a expressão só tem um significado literário, sem conotações ideológicas que a vinculem com a latinidade. Muito pelo contrario, quando Rodo fala sobre o continente, sobre a unidade americana, sempre esta pensando em Hispano-América. Mas vejamos um texto do escritor uruguaio:

“No necesitamos los suramericanos, cuando se trata de abonar esta unidad de raza,
hablar de uma América Latina; no necesitamos llamarnos latino-americanos para
levantarnos a un nombre general que nos comprenda a todos, porque podemos
llamarnos algo que signifique una unidad mucho más íntima y concreta: podemos
llamarnos “iberoamericanos”, nietos de la heroica y civilizadora raza que sólo
políticamente se ha fragmentado en dos naciones europeas; y aun podríamos ir más
allá y decir que el mismo nombre de hispanoamericanos conviene también a los
nativos del Brasil; y yo lo confirmo con la autoridad de Almeida Garret; porque
siendo el nombre de España, en su sentido original y propio, un nombre geográfico,
un nombre de región, y no un nombre político o de nacionalidad, el Portugal de hoy
tiene, en rigor,tan cumplido derecho a participar de ese nombre geográfico de
España como dos partes de la península que constituyen la actual nacionalidad
española; por lo cual Almeida Garret, el Poeta por excelencia del sentimiento
nacional lusitano, afirmaba que los Portugueses podían, sin menoscabo de su ser
independiente, llamarse también, y con entera propiedad, españoles”(Rodó,1956).
Este texto pertenece ao livro El Mirador de Próspero, publicado em 1913.

Um outro intelectual importante, contemporâneo de Rodo, foi José Carlos Mariátegui.
Uma revisão de suas Obras Completas, permite observar o uso da expressão América Latina
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quatro vezes nos Siete Ensayos sobre la realidad peruana, e isto no ensaio sobre educação. A expressão aparece em Temas de nuestra América, que reúne artigos publicados entre 1924 e 1928. Na realidade a expressão está contida como título de um dos artigos: “La América Latina y la disputa boliviano-paraguaya”, e aparece uma vez no contexto do artigo. Não obstante,o artigo anterior se refiere ao Ibero-Americanismo e Pan-Americanismo. Aqui, Mariátegui discute o significado histórico, político e econômico dessas expressões. O interessante, é que o pensador peruano opõe a essas duas expressões, a idéia de uma América Indo-Ibérica. É mais que evidente que o escritor que mais reivindicou o direito dos indígenas, não podia aceitar essa noção de latinidade que nada tem a ver com os povos aborígenes. Usou a expressão América Latina, mas não se deu ao trabalho de discuti-la, porque talvez a encontrasse injusta e inoportuna.(Mariátegui,1994).

Da mesma forma, outro intelectual importante de inicio do século XX, o mexicano José
Vascocelos em seu livro sobre questões americanas, Bolivarismo y Monrroísmo, editado em
1929, usa as expressões Hispano-América, Ibero-América, Novo mundo. Para este pensador, a latinidade devia ser alguma coisa exótica na medida em que ele pensava América como o continente criador de uma raça superior, a raça cósmica, que era a fusão final de todas as raças.(Vasconcelos, 1935)
Uma rara excepção, é o livro de Francisco Garcia-Calderon, Les Démocraties latines de
l’Amérique, de 1914. Este diplomata peruano que tem vivido por anos em Paris, que fala e
escreve com perfeição o francês, segundo disse no prfácio do livro Raimond Poincaré, não só usou a expressão América Latina, mas talvez tenha sido o primeiro intelectual americano a discutir a importância e o significado da latinidade. Considerou que a latinidade do continente, era o resultado de três forças de pressão: o catolicismo, a legislação romana e a cultura francesa. A lei romana foi a base da legislação espanhola a partir de Alfonso X o Sábio, com as Partidas. O catolicismo está indissoluvelmente unido à autoridade romana na pessoa do Rei: na Espanha e na América, o Príncipe é ao mesmo tempo pastor da Igreja. Sob a dupla pressão do catolicismo e da legislação romana, América se latinizou. América aprende a respeitar as leis e se disciplina tanto na vida religiosa como na vida civil. Finalmente, as idéias francesas,juntam-se a essas duas forças, preparam primeiro a revolução, depois passam a governar os espíritus americanos desde a independência até nossos dias(GarciaCalderon,1914).

No geral, se pudéssemos fazer um balanço de todos os escritores americanos que se
interessaran por traçar o perfil do continente, sua identidade, observaríamos que a maior parte Anais Eletrônicos do V Encontro da ANPHLAC Belo Horizonte – 2000
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se mostrou preocupado com as questões autóctones, pelas raízes históricas definidas da
cultura nacional ou continental. Foi o caso de Sarmiento com Facundo; Ezequiel Martinez
Estrada com Radiografia de la Pampa de 1933; Ricardo Rojas com Euríndia de 1924;
Alfonso Reyes com Visión de Anáhuac de 1917. Enfim, escritores importantes do século XX,
como Octavio Paz, Samuel Ramos, German Arciniegas, Benjamin Subercaseaux, Lezama
Lima, Haya de la Torre, Pedro Henríquez Ureña, preferiram falar de América, de HispanoAmérica ou de Ibero-América.
Todavia, outro intelectual que discutiu a questão da latinidade dos americanos, foi o
peruano Victor Raúl Haya de la Torre em seu livro de 1928, A donde va Indoamérica?
Nesta obra ele propõe o nome de Indoamérica para o continente, não apenas para
reivindicar as raças aborígenes, mas com a finalidade idológica de iniciar um movimento
político de alcance continental para despertar essa enorme mola compr
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latine au XIX siècle, de 1945. Especialmente importante foi o livro de Siegfried, uma espécie de Bíblia dos sul-américanos na época da Segunda Guerra Mundial, particularmente pela interpretação econômica das causas que levavam a inestabilidade política do continente nessa década. Para o historiador francês, o colapso fianceiro de 1929 tinha sido a causa fundamental. Mas não todos os autores franceses usaram a expressão nesse inicio do século XX. Assim, o geógrafo Pierre Denis, usou o nome de América do Sul em seu valioso estudo sobre o continen-te de 1933 da Geografia Universal de Vidal de la Blache, volumen XV.

Todavia, antes que os franceses, William S. Robertson, já famoso por seus estudos
sobre Francisco de Miranda e a revolução da independência, publicou em Nova Iorque em
1922 a History of the Latin-American Nation.
Na realidade, foi no período da Segunda Guerra, que o nome de América Latina se
popularizou, especialmente pelos estudos dos historiadores e economistas norte-americanos.
Vejamos alguns títulos importantes: Preston E. James, Latin American, N. York, 1942. Este
livro, é um dos primeiros, senão o primeiro, estudo sério da geografia econômica do continente. William Rex Crawford, A Century of Latin-American Thought, Cambridge, Mass., 1949. Este livro é um estudo destinado a identificar e definir o perfil das pricipais tendências do pensamento continental nos séculos XIX e XX. É uma espécie de manual do pensamento latino-americano.

Willy Feuerlein e E. Hannan, Dollars in Latin American, N.York, 1941. Evidentemente,
este livro é o primeiro estudo sobre as relações econômicas e financeiras dos
Estados Unidos com América Latina nos anos que anteceden à Segunda Guerra e aos anos da guerra. A inversão norte-americana é estudada em detalhes.
Fred J. Rippy, Latin América and the industrial age, N.York, 1947. Talvez o primeiro
estudo sobre este tema da industrialização feito por um dos maiores especialistas em assuntos econômicos do continente, especialmente dos investimentos britânicos e franceses na América no século XIX.
Samuel F. Bemis, The Latin American policy of United State,N. Haven,1943. Um livro
fundamental e primeiro na análise das intervenções norte-americanas na América Central, e sua relação com a doutrina do “destino manifesto”
Todavia, temos que lembrar que o Handbook of Latin American, fudamental para os
estudos acerca do continente, começou a ser editado em 1935.
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De fato, foram os historiadores norte-americanos que divulgaram o nome de América
Latina neste continente, pois muitos desses estudos foram traduzidos para o espanhol na
década de cinqüenta.
Todavia, na década de quarenta alguns pensadores latino-americanos iniciaram o
questionamento da latinidade do continente. Entre eles, o peruano Luis Alberto Sánchez com seu livro, Existe América Latina?, de 1945. Mesmo não sendo aparentemente seu objeto de discussão, é possível ler nas entrelinhas que a questão que o motivou a escrever o livro é a latinidade. América Latina existe, essa é a resposta de Sánchez, mas essa existência é ambígua porque ela está fundada em um elemento estranho à maioria da população, isto é, a latinidade.
Por outro lado, a latinidade tem permitido à minoria branca pensar e até sentir que a América é européia, e que os indígenas, negros e mestiços sofreram um processo de branqueamento .
Pode-se observar também, entre parênteses, que tem sido intelectuais peruanos os que mais se preocuparam com a latinidade do continente. A razão disto talvez seja o fato de que a sociedade peruana, e em geral, toda a sociedade andina, é de forte tradição indígena e mestiça, populações estas que têm conservado, de todas as formas imaginadas, as seculares tradições e práticas pré-hispânicas. Se é certo a afirmação de Haya de la Torre de que França introduziu o liberalismo no continente americano, essa filosofia fundada nas noções de Estado, Nação e individualismo, nunca foi compreendida pelas populações indígenas para as quais não existe a Nação peruana,boliviana, equatoriana, chilena; o que existe é uma comunidade quíchuaaimara sem fronteiras nacionais. O Estado liberal é menos compreendido ainda, pois o poder central só poderia estar encarnado na figura do cacique ou do Inca. O individuo é sobrepujado pelo coletivo.

Depois de vários anos, o pensador peruano parece convencido de que não era possível
questionar o nome de América Latina, pois reeditou seu livro com outro título: Examen
espectral de América Latina.(Sanchez ,1945)
A reflexão de Sanchez, mereceu um artigo crítico do historiador Fernand Braudel nos
Annales. O livro é considerado, com razão , “deslumbrante”, porém a crítica é tangencial ao
problema central levantado pelo escritor peruano. Braudel não toca explicitamente no assunto de se o continente merece ser chamado de latino, mas desen-volve a tese obvia de que existem varias Américas Latinas, não apenas determinadas pelos contrastes geográficos, mas também pelos contrastes políticos, culturais e econô-micos. A debilidade deste livro, na opinião de Braudel, é sua estrutura monocrômica, seu empenho em suprimir as diferenças, de querer Anais Eletrônicos do V Encontro da ANPHLAC Belo Horizonte – 2000
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reduzir os problemas a um problema só. Acaso, implicitamente, Braudel rejeitava a latinidade do continente na medida que esta quer impor uma uniformidade incômoda (Braudel, 1948).
Pensamos, que o nome América Latina se estabelece definitivamente após a Grande
Guerra. De fato, esse nome se consagra em 1948 quando se funda a CEPAL, Comissão
Econômica Para América Latina, como organismo das Nações Unidas.
Entretanto, a expressão América Latina se difunde intimamente associada ao conceito
de sub-desenvolvimento que aparece na década de cinqüenta. Então, América Latina passa a ser sinônimo de inestabiliade política crônica; estrutura produtiva atrasada e em certos casos arcaica; dependência total ao capital norte-americano; estrutura fundiária reorganizada pelo capital monopólico; acentuado crescimento demo-gráfico. São estes processos concretos, próprios do século XX, que deram conteúdo histórico à idéia de América Latina. No fundo, o que queremos dizer,é que a questão do nome não é puramente semântica, nominativa. Pelo contrario, envolve realidades históricas concretas e específicas, e estas pertencem ao século XX.

O nome de América Latina tornou-se tão popular nos últimos cinqüenta anos, tão
expressivo, que já serve não só para designar o difícil século XIX, mas para nomear à
América Colonial. É o caso, entre outros, da Historia da América Latina, editada pelo
historiador inglês Leslie Bethell. O volume primeiro, relativo ao século XVI, leva por título:
Colonial Latin América. Isto não só é um ato de imprudência historiográfica, mas também e
sobretudo, uma forma discriminatória das populações indígenas e negras do continente.
O historiador italiano Ruggiero Romano escreveu, com a prudência que lhe foi
característica, o seguinte: “Ninguém ousaria, e de fato ninguém ousa, falar de latinidade da
América na época colonial: o acordo, a esse respeito, é total” (Romano,1973).
Parece ser que o acordo não foi nem será respeitado.

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